quarta-feira, 30 de março de 2016

Seu Carlos, o Cabrito

A cidade tem a cara das pessoas que a fazem, me disse, um dia, meu amigo e professor de patrimônio histórico, arquiteto Douglas Heidtmann. Sempre penso nesta afirmativa quando me despeço de alguém representativo, que parte deste oriente para o eterno. Cidades são feitas pelas ideias e pelo viver das pessoas que nela habitam. Representam seu modo de ser, suas angustias, seus prazeres, enfim, suas almas, pelo menos é assim que as vejo. Escuras, claras, sisudas, soltas, sóbrias, despojadas, elegantes ou deselegantes. Umas poesias, outras prosas. Umas libertam, outras sufocam. Algumas são velhas, mas adolescentes, outras adolescentes, mas velhas. Acho que um dia com esta pasteurização que vivemos (as mesmas redes de lojas, de fast food) elas ficarão muito parecidas, como são os shoppings centers. Por sorte, ainda, esta ânsia pelo conforto e consumo seguro é interno a grandes edifícios e não tem prejudicado o pulsar e o viver das ruas, que são como um amalgama que envolvem encantos e defeitos e traçam a personalidade da cidade. Uma vez falei para um amigo sobre Laguna. Ele a visitou e voltou decepcionado com a minha indicação. “Uma cidade velha, com prédios caindo aos pedaços, calçadas com postes e estreitas, que fazem com que a gente tenha que andar desviando. Como gostar desta cidade”? “Gosto porque é uma cidade antiga, com prédios caindo aos pedaços, calçadas estreitas, respondi, e adoro desviar dos postes”, mas nem perdi mais tempo, explicando. Com explicar que gosto das cidades que têm alma, personalidade. Laguna é uma cidade alegre, as vezes até demais, e tem alma e personalidade ímpar. Conheci seu Carlos, o Cabrito, em Joinville a uns 25 anos atrás, quando ele visitava sua filha, que trabalhava comigo. Empatia de primeira hora e, por estas coisas do destino nos aproximamos, já que morei em Laguna nestes últimos 5 anos. Cada vez que o encontrava, pensava: “seu Cabrito é a cara e a alma de Laguna”. Aos 90 anos, ele subiu para o “andar de cima” e estive lá para homenageá-lo e ajudar a levar seu corpo carnal até sua morada definitiva. Seu espirito, imagino, antes de ir para seu novo local de permanência, deve ter dado umas voltas pelos locais onde viveu seus melhores momentos, além de ter passado no próprio velório, para dar uma zoada, afinal era um grande e divertido “cara” e não perderia a oportunidade.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Maturidade

Se queremos estar bem informados, pois a alienação nos deixa parvos, temos que estar ligado em todos os tipos de mídia. O problema é que está difícil acreditar no que se escuta hoje no Brasil e seguir adiante sem ficar frustrado ou revoltado. Pior é que aos sessenta e poucos anos a gente se entende maduro. Acredito que a maturidade está associada à idade e aos anos de experiência que a vida cronológica nos impõe e isto, às vezes, faz com que os acontecimentos que vemos na mídia, todos os dias, fiquem mais dolorosos do que gostaríamos que fosse. Quantas vezes escutamos: estamos num beco sem saída! Pois entendo que nós brasileiros, neste momento, estamos em um beco estreito, sujo, malcheiroso e sem saída! Petrolão, suborno, zika, microcefalia, agrotóxicos em produtos orgânicos, CPMF, desemprego, inflação, etc., e a gente fica sem saber em que ou quem acreditar, comentava eu com meu brother Theofanes, o pândego. Ao que ele me disse: O sociólogo Noam Chomsky, catalogou técnicas de mistificação e manipulação usadas pelos políticos e mídias, especialmente para aqueles que, como eu, lutam contra a ignorância diária, considerando que amadurecer é ter cuidado com o que se diz e se ouve e, principalmente, meditar sobre o que se pensa. Escreve ele que: - A estratégia da distração é fundamental para manter a atenção do público em temas de pouca relevância (programas banais de TV, por exemplo), fazendo com que se interessem apenas por fatos insignificantes. - A partir de dados manipulados, inventa-se um grande problema para causar reação no público. Por exemplo: a notícia da existência de uma epidemia, criando um alarmismo com o objetivo de distrair a população. - Aplicar e noticiar medida inaceitável a conta-gotas. É dessa maneira que, gradualmente, se introduzem novos impostos. - Para o populismo demagogo usar a emoção faz o indivíduo colocar de escanteio sua parte racional, tornando-o facilmente sugestionável e até fanatizado. Então, meu amigo, qualquer coincidência no que vemos hoje é mera semelhança com as técnicas de Chomsky e para não sofrermos tanto temos que entender as mensagens cifradas, com maturidade. Eles sabem e conhecem nossas preferências e, mais que isso, sabem explorar nossas emoções. Repetem a mentira e manipulam o pensamento da malta e daí, meu caro, fica-se num beco sem saída e no salve-se quem puder.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Turma de 1975

Quando meu pai me deu os 200 cruzeiros, janeiro de 1971, para ir de Joinville a Piracicaba, SP, prestar o vestibular, um novo mundo se descortinou para mim. Nunca contei para ele, mas quando desci no Petropen em Registro, onde o ônibus da Penha fez um “pit stop”, minhas pernas tremeram. Tinha 17 anos e ia para uma cidade a cerca de 700 km, tentar fazer um curso superior. Depois de uma noite no busão fui para faculdade me inscrever. Inscrito, conversei com o Pedro Sega, presidente do centro acadêmico, pouco atuante em tempos de AI5, mas que ajudava os forasteiros que se aventuravam, como eu, a ir para o interior de São Paulo cursar faculdade. “Poderias me dizer onde posso arrumar um quarto para ficar enquanto faço vestibular? ” perguntei. “Craro. Pega as dereita, vira as esquerda, ali tem uma repúbrica. Fala com o Horita. Estamos fazendo exames de segunda época”, respondeu. O curso era anual e, por sorte, os exames eram naquela semana. Pronto. Estava na cidade onde o passarinho faz pir. Naquela noite estreei como “marreco” em “Piracity”. A noite, o Horita me convidou para sair e fomos numa lanchonete da Vila Resende. Entre um gole e outro, fui “batizado” e nos anos seguintes não escutei ninguém me chamar pelo nome, só de Catarina. Apelidos eram comuns entre os alunos e na minha turma tinha, entre outros: Pescoço, Santista, Bico, Vanusa, Xilim, Nardo, Xeroso, Vermeio, Velho, Simona, Baiano e Cacá. Até os professores nos chamavam assim, pois éramos de uma faculdade que só tinha o curso de engenharia civil e todos se conheciam e viviam aquela amizade característica do interior. Depois da gente tomar várias “loiras geladas” intercaladas por “marditas”, cachaça da região, o João Prudente falou: “a conta”. O garçom trouxe e o Josmar, maior contador de histórias que conheci em Piracity, olhou e disse: “vamos pagar com um pique”! Alguém vociferou: “corre Catarina”! Cabaço, não corri. Paguei a conta. Encontrei-os na república rindo, mas me devolveram a parte deles. Estreei como calouro e, ainda, nem tinha feito o vestibular. Vivi de 1971 a 75 naquela espetacular cidade. Fizemos, em dezembro/2015, 40 anos de formados e nos reunimos em Pira. Foi muito prazeroso encontrar aqueles jovens sonhadores, agora senhores grisalhos, saber como estão e reviver histórias daqueles bons tempos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Vergonha na cara

O Natal está chegando. Não sou daqueles empolgados com a época, principalmente com a história de dar presentes. Gosto da religiosidade. Claro que a gente, quando tem filhos pequenos, curte mais a envoltória e a mística cristã e se envolve e alimenta os sonhos de que aquela época do ano tudo parece ser bom. Afinal, deveria ser, pois representa o nascimento de Jesus, e em todo nascimento está a revitalização, o iniciar. Isto, para nós humanos, é importante. O que me confunde é a relação entre o nascimento de Cristo e o Papai Noel. Uma mistura, como se diz hoje, nada a ver. Mas é o que há e, infelizmente, a maioria se fixa na parte pagã da época. De muitas passagens nestes 63 anos de vida, uma no período natalino me marcou. A de um professor que trabalhava comigo e que no final do ano mandou um e-mail pedindo perdão pelos atos que eventualmente tivesse feito e que me ofenderam. Nunca me convenci com a história de Jesus perdoar um dos ladrões na hora da crucificação. Mas tem gente que acredita e fica o ano todo enchendo o saco dos outros e, aproveitando a época, vem com esta história de perdão. O cara vivia se vangloriando que tinha conduta ilibada, mas, a meu ver, não as praticava no dia a dia. Até pode ser que tivesse razoáveis sentimentos morais, mas não entendia que não basta somente tê-los. Que o relevante é demonstrá-los em cada ato e em cada decisão. Na minha visão ele não tinha vergonha na cara. Nós, normalmente, ficamos corados quando sentimos vergonha por algo desonroso que fizemos, pois, o ato de corar revela nossa vergonha. Ele não corava. Quem tem vergonha na cara olha o outro direto nos olhos e procura fazer a coisa certa. Não precisa ficar se desculpando, se escondendo ou ficar olhando para baixo. Norteia seus atos pelos códigos do respeito, ou seja, respeitar para ser respeitado. Quem tem vergonha na cara anda ereto. O marmelo do meu colega, ao contrário, andava encurvado, olhos abaixados e apertava a mão da gente como se não tivesse forças. A minha resposta para ele foi que eu até podia desculpá-lo, mas perdão, já que estávamos na época natalina, que ele pedisse a quem tinha o poder de perdoar. Pelo sim, pelo não, um feliz e religioso Natal a todos.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Olho Gordo

Gordurinha, que cara é esta? Estás desanimado? “Pô, Pirulito”, respondeu-me ele, “encontrei o zolhudo do Sapopemba, e o miserável parece que me sugou as forças. Não sei se isso acontece contigo, mas comigo acontece sempre. Tem certo tipo de gente que parece que consegue tirar nossas forças apenas com o olhar”. “Comigo também acontece, mas sempre fico na dúvida se isso não pode ser coisa da cabeça da gente e, para se eximir, achamos que a culpa é do outro.” “Nada, brother. Tu estás de boa, alegre, legal, aí encontra um marmelo qualquer e pimba, dá-lhe baixo astral. Sei lá, às vezes penso que a nossa felicidade azucrina o zolhudo. O problema é aprender a conviver com isso e fingir que não é contigo. Já li que “mal olhado” vem por meio de energias negativas transmitidas por raiva ou inveja. Só sei que quando ocorre, a gente desanima, fica sem energia, aflito, e com a sensação de que está tudo errado e que vai acontecer algo de ruim. Muitos consideram o fenômeno do mal olhado superstição pura, mas acho que não, pois, infelizmente, acredito que tem muita gente ruim ao nosso redor. Gente desequilibrada que transmite energia negativa.” “Outro dia, fui na casa do meu amigo, Lilo Boca D’água, e ele tinha na sala vasos com pé de arruda, comigo ninguém pode, espada de São Jorge e pimenta vermelha. És supersticioso, meu irmão? Para que tudo isso?”, perguntei. E ele respondeu: “Eu, não! Mas, pelo sim, pelo não, cultivo tudo contra olho gordo!” “Pirulito”, completou ele, “antigamente, quando eu era acometido desse mal-estar, ia lá em Itajuba me benzer com o velho Chico Feio, que devia ter para lá dos 90 anos. ‘Estás carregado, meu filho’, ele dizia. O que me impressionava era vê-lo abrir a boca intempestivamente e as lágrimas que rolavam de seus olhos ao me benzer. Tirava a coisa ruim da gente com reza forte. Inacreditável. A energia dele era tão boa que a gente saía dali outro. Leve, solto. Mas ele partiu e fiquei sem meu benzedor preferido. Tenho procurado outro, mas isso é coisa de gente antiga, difícil de achar. Outro dia, me disseram que tem um marmelo que benze pela internet. Mas daí não dá. Benzimento cibernético, estou fora e, por isso, vivo me desviando dos zolhudos”.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O médico e o monstro

Parado na frente de uma escola, destas em que os pais buscam os filhos em carros caros, vi uma cena que me levou à 1974, quando estudante de engenharia. Uma senhora estacionou seu carro para esperar os filhos e nem aí para os outros que queriam passar. Um senhor começou a buzinar e não é que a mulher desceu do carro e desancou o dito com palavrões, que me fizeram sentir o ardido da pimenta malagueta que minha mãe, esfregou na minha boca quando me atrevi, ainda menino, a falar algo parecido. Tive uma disciplina de planejamento urbano, lecionada por um arquiteto, que chamávamos de Paulinho Maravilha, que acabara de voltar de seu mestrado na Holanda. Passar um filme em aula, diferentemente de hoje, era difícil, mas ele numa daquelas tardes passou. Era uma paródia do livro “o médico e o monstro”, de Robert Stevenson. No livro o autor aborda uma temática pesada, mas essencialmente humana: o bem e o mal que existe em cada um de nós. Dr. Jeckyll, o médico representa o bem e Hyde, o assassino, o mal. Uma mesma pessoa com duas personalidades antagônicas. O filme canadense feito para orientar as pessoas no transito, mostrava como estas se transformam quando estão ao volante de um veículo e parodiava o livro, mostrando um médico pediatra atendendo com toda gentileza possível crianças em seu consultório. Encerrado o expediente ele sai dirigindo como uma besta, transformado em Hyde e com temperamento colérico, totalmente impaciente, ultrapassava onde não devia, buzinava, acelerava e xingava àqueles que entendia estarem lhe atrapalhando no transito. De repente uma bola atravessa na frente do carro e ele teve que dar uma freada brusca para não atropelar uma criança. Foi o suficiente para ele descer e achincalhar o pequeno. Pouco depois ele chega na sua casa e dois filhos vem correndo em sua direção. Volta o dr. Jeckyll, que abraça as crianças e entra em casa feliz. Voltei no tempo e correlacionei com o que estava acontecendo ali. A senhora, de boa estampa, alterada e achincalhando o senhor que só queria continuar seu caminho. Em seguida chegaram os filhos dela e esta os abraça, coloca-os no carro e sai sem olhar para traz. Fiquei ali pensando no professor Paulinho e no porque nos transformamos quando estamos dirigindo um veículo qualquer. O que nos acontece a ponto de nos transformarmos de Jeckyll a Hyde em segundos?

sábado, 22 de agosto de 2015

Didi

Pirulito, me dizia o Didi, quando eu tinha uns 10 anos minha avó tinha um papagaio que falava tudo. Um dia ele fugiu. Uns seis meses depois fui caçar no mato da Chiquita. “Ali na rua São Paulo esquina com a Alexandre Schlemm?” Perguntei. Isto. Lembras daquele pé de goiaba, monstruoso? Então, vi um papagaio num galho alto e mirei a cheloida. Para minha surpresa ele abriu as asas e disse: Didi não me mate, sou eu. Foi um gargalhada só. Na Joinville antiga, quando os navios iam até o moinho e no porto do Bucarein aportavam barcaças para carregar madeira e levar para o exterior, trabalhavam dois tipos de profissionais. Os Terrestres, cujo sindicato ficava na Rua Padre Kolb e onde o Didi se criou e o da Estiva, na Av. Procópio Gomes, onde me criei. Os primeiros trabalhavam do lado de fora das barcaças e os outros na parte interior. Homens fortes, que com a força de seus braços, ajudaram a fazer a história de Joinville. Nestes dias onde impera a sigla VIM (vaidade, inveja e maledicência), ainda existe gente boa e o Didi (hoje mais conhecido por Chiquinho) é uma destas pessoas. Amigo, simpático, tranquilo e com uma peculiaridade: paga para não falar, mas não se exime de escutar. Fazia tempo que não o via e o encontrei outro dia no centro da cidade onde ficamos trocando figurinhas e relembrando os bons tempos de juventude. No futebol era um leão. Jogamos muito nos campos da creche Conde Modesto Leal e do Grupo escolar Rui Barbosa. Tocador emérito de surdo nas rodas de samba e grande companheiro de “cuba” no antigo bar Braço de Ouro (Rua XV, esquina com a João Colin). Em grupo ficávamos conversando madrugada a dentro, e nos divertíamos com o silencio dele e de outro joinvilense taciturno, o Kid Sant’Anna. Certa vez o Pinga convidou o Didi para ir até Itajaí de carro e especificou que o estava levando para ele ir conversando na viagem. Ele topou. La por Itajuba, já passado 55 Kms, ele não havia aberto a boca, quando o Pinga já agoniado falou: Pô meu, viestes para conversar e não dissestes nada ainda. O Didi, travado de medo, olhou para ele com olhar de reprovação e disse: eu vim para falar e tu para dirigir, portanto cala a boca e presta atenção na estrada! Grande Didi!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Trairaço rei

Estava observando o Henrique, meu neto holográfico, brincar com um coleguinha, e discutir a divisão dos brinquedos. Espertinho, não estava fazendo uma divisão justa. De repente, ele vira para mim e pergunta: - Vô Pirulito, sabes por que o vô Gordurinha chamou o tio Mindoin de trairaço rei? Viajei no tempo e lhe disse: - Este termo é antigo. Quando eu e meus irmãos tínhamos a idade de vocês, a gente passava as férias de verão na praia de Itajuba, com a vó Maria. Um dos passatempos preferidos era pescar no rio que ficava nos fundos do terreno do seu Pedro Pavio. Um rio piscoso, de água doce, em que pescávamos carás e traíras – que, à noite, a vó fazia frito para comermos com pirão d’água. Depois do almoço, passávamos no bananal da dona Miquelina, catávamos minhoca e lá íamos faceiros para a pesca. Colocávamos a isca e arremessávamos a linha com a devida rolha colorida na água, esperando as beliscadas para puxar, se tivéssemos sorte, um dos peixes que ali existiam. Um dia, o Gordurinha, agoniado, mal a rolha começou a balançar, puxou com tudo e, claro, não veio nada. Daí, a vó disse a ele: - Era um cará! - Como a senhora sabe? – perguntei. - Para conhecer os peixes, tens que conhecer as manhas. O cará, que tem boca pequena, fica beliscando e tirando a isca aos pouquinhos, até entender que o restante cabe na boca e, aí sim, engole. Por isso, para pegá-lo, tens que ter paciência. Já a traíra, não. Ela tem boca grande, engole e leva a rolha de vez para o fundo. Mas, nos dois casos, tens que estar atento, senão te levam a isca. Naquele instante, a rolha da linha dela foi com tudo para o fundo e ela, esperta, puxou. Veio uma baita traíra, ao que exclamou: - Um trairaço rei! - Hum, entendi. Tem esse nome porque é mais bocudo, mais ligeiro e tem mais ganância! – disse o Henrique. - Isto mesmo. E como o vô Gordurinha acha o tio Mindoin ligeiro, de boca grande e ganancioso, ele o chama de trairaço rei. E, já que entendestes, volta lá e divide certinho os brinquedos com teu coleguinha, senão, também te chamo. - Pode deixar vô, já entendi!

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Udesc - 50 anos

A Universidade do Estado de Santa Catarina, em 20/05/2015, completará meio século de história. Quem trabalhou e viveu a universidade como eu, por 34 anos, traz no peito o orgulho por esta instituição, por saber que hoje, ela é avaliada pelo Ministério da Educação (MEC) como a 4° melhor universidade estadual do Brasil entre 37 e a 7° na área de graduação e 18° no geral entre as 192 universidades brasileiras. Criada pelo governador Celso Ramos, em 1965, tinha a vocação de ajudar a desenvolver o estado, mas, até 2004, ficou estagnada, em três campus: Joinville, Florianópolis e Lages. Após 2004, visando resgatar seu objetivo, muitas reuniões de convencimento da importância da instituição foram feitas com os governadores e deputados e, daí surgiram, com o incremento no aporte financeiro, outros centros: CEO/Chapecó, CEPLAN/São Bento do Sul, CEAVI/Ibirama, CERES/Laguna e CESFI/Camboriú. Não foi uma luta fácil pois, muita gente dentro da própria universidade não acreditava na força e no potencial de crescimento dela. Hoje muitos daqueles contrários batem no peito com orgulho, pois trabalham em uma universidade pública, gratuita e de qualidade, que possui 53 cursos de graduação com 15 mil alunos e 24 mestrados e 10 doutorados. Meu brother Gordurinha, quando eu orgulhoso comentava o feito, desafiou: “ Quem, nesta data, tu indicarias para ser “o cara” da UDESC?” “Muitos participaram desta história, e eu não seria justo se indicasse um”, respondi. “Não afina”, disse ele. “Não é o caso de afinar” respondi, “não quero ser injusto, mas tudo bem. Professor Claudio Henrique Willemann. Dos mais antigos na instituição, ainda na ativa. Tem, contando a graduação, uns 40 anos de casa. Considerando que esta faz 50, ele se confunde com a história da instituição. E posso garantir que ele a viveu, pois nunca vi uma comissão ou um conselho da instituição, em que ele não estava lá colocando sua vida e suas convicções. Convivemos de perto nos últimos cinco anos na UDESC/Laguna, onde ajudamos a implantar aquele centro. Posso garantir que ele discutiu, transigiu e trabalhou sempre pelo bem comum e, diferentemente de outros, nunca se omitiu, faltou, sofismou ou traiu. Pra mim ele é o Cara/Udesc!”

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Apelidos

Durante décadas, o bar (Plácido Olímpio esquina com Procópio Gomes) serviu de concentração para os estivadores, que trabalhavam no Porto do Bucarein, na antiga Joinville, carregando as “chatas” com tábuas de pinheiro, que viajariam mundo afora. No fim do dia, vinham para o bar, para descansar da lida pesada, beber uns “gorós” e conversar. O Chico do Ernesto, dono do bar, era o maestro, com facilidade incrível para apelidar os frequentadores. Talvez hoje, nestes tempos do “politicamente correto”, fosse condenado por bullying. Antigamente, era comum as pessoas terem apelidos. Alguns se chateavam, outros adotavam, mas, sinceramente, não conheço ninguém que tenha ficado sequelado por este motivo. Naquele tempo, era difícil alguém escapar de ser apelidado e pegava mais facilmente em quem se irritava. O comércio era de secos e molhados, o que quer dizer que se vendia de tudo. Mantimentos de um lado e bebidas do outro. “Seu Cico, meu pai quer um quilo de milo telo, pras galinhas”. Pronto, apelidado: Milo Telo! Os filhos não escaparam: Pé de Valsa, Gordurinha, Pirulito e Carijó. E os amigos destes também não: Pinga, Coronel, Vela, Cepa, Grilo, Lilo Boca d’Água, Pedro Avião, Pirão e por aí afora. Apelido virou designação, geralmente para identificar uma pessoa, de acordo com certa característica, positiva ou negativa, que se destaque nesta. Quem conheceu o Chico e sua boa alma sabe que o objetivo não era ofender ou humilhar. Era algo que vinha dele. Vangloriava-se de ser conhecido como “Chico do Ernesto”. Apelido da vida toda. Defendia que todos deveriam ter o seu e registrados em cartório. “O apelido traça o perfil do seu dono, diferentemente dos nomes que são escolhidos pelos pais”, dizia. É por isso que eles se fixam e se tornam maiores, a ponto de ignorarmos os nomes verdadeiros. Outro dia, olhava meu álbum de formatura na engenharia e citava: “O Bico, o Pão com Molho, o Baiano, o Cacá”, e cadê que eu lembrava dos nomes deles? E, na real, entendo que naquele tempo nós éramos mais tranquilos, mais amigos e mais educados. Hoje, penso em como éramos e, só por isto, entendo que valeu a pena ter tido um apelido.

sexta-feira, 6 de março de 2015

DESPEDIDA

Minha filha, até uns quatro anos, tinha um trapo de manta, que chamava de “cheirinho” e que fazia parte do seu dormir. Chorava e sofria quando este estava no varal, secando. Desapegar do trapo foi uma novela. Custou. Pois agora chegou a minha vez. Aposentadoria. Esta história de desapegar é moleza com os outros. Está difícil começar o semestre sem uma sala repleta de alunos, após 35 anos desta rotina. Sou muito feliz e grato a Deus por ser quem sou. Entendo que tenho força interior para superar, mas, no final das contas, não é fácil sorrir estando com vontade de chorar. Tento entender, imaginando que desapegar não é expulsar lembranças da mente, mas diminuir o poder delas sobre mim, colocando-as no cantinho adequado: o do passado. Difícil é partir deixando toda a envoltória do local de trabalho, sem se sentir desistindo de mim ou do restante. Percebo-me como se estivesse me despindo de alguns sonhos e entrando em um labirinto, sem muitas perspectivas de encontrar a saída. Sempre tive a consciência de que todo ponto de chegada é também de partida e de que no cemitério está cheio de insubstituíveis. Por isto, mesmo sem ter a intenção de sofrer, aposentar está me parecendo entrar num trem e deixar a estação, sem destino, mas sabendo que farei parte de outras paisagens. Ainda falta desapegar a ponto de ocupar o espaço na alma com o que chega para me transformar, entendendo que o que realmente importa está com o que vai com a gente e não com o que fica. O que fica estará num cantinho específico, gerando, somente, lembranças. Agora entendo o apego de minha filha pelo “cheirinho”. Esse tal de apego, hoje grudado em mim, é antagônico, pois ajuda ao mesmo tempo que atrapalha. Ajuda porque é sempre bom sentir, gostar, ter carinho por espaços e por pessoas. Atrapalha porque virar a página, partir, é complexo. É difícil deixar para trás o “cheirinho” que fez parte da sua vida. É difícil sair da zona de conforto, dar um passo à frente sem saber o que vai encontrar. Mas não tem volta, agora é ir ou ir, controlando a adrenalina, alçando novos voos e desejando felicidades aos que ficam com a obrigação de fazer a universidade dos catarinenses, Udesc, crescer mais e mais, cumprindo seus objetivos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Avolta

Quando o Dico, o Back e eu atravessamos a ponte sobre o rio Órbigo e entramos no município de Hospital de Órbigo, do século 16, província de León, com população de 1.028 habitantes, já passava das duas da tarde. Naquele dia, andamos 32 km e, como acontecia em todos os outros 24 que percorremos no caminho francês de Santiago de Compostela, estávamos exaustos. Logo encontramos um abrigo. Albergue Paroquial Karl Leisner, onde fomos recebidos com refrescantes copos de água, benditos naqueles dias escaldantes de julho. Naquela noite, resolvemos fazer bifes acebolados. Ainda não havíamos comido carne, neste formato, durante a caminhada. Passamos em uma carniceira e compramos alcatra. O Back foi para a cozinha e caprichou no preparo. Dividíamos a mesa do albergue com um casal já conhecido de outras paradas, JJ, francês, e Sun, coreana, uns japoneses e uma italiana baixinha, namorada de um holandês enorme, todos admirados por comermos carne naquela quantidade. A italiana, querendo puxar conversa, falou: “Tive um amigo brasileiro que me ensinou uma frase quando voltávamos de uma viagem”. “Legal”, disse o Dico. “E como era?”. “A volta é foda! Mas nunca entendi direito o que o ragazzo quis dizer.” Rimos, e o Dico tentou explicar para ela que ele queria dizer que a volta é difícil. Dias depois, subimos o El Cebrero, seis horas morro acima, 1.300m de altura. A descida estava tranquila, mas, numa encruzilhada, inventamos de pegar a estrada asfaltada, em vez da trilha pela mata. Dois quilômetros depois, de descida, encontramos um casal de agricultores. “Buenos días”, diz a senhora. “No es que me interesa. Pero dónde van los señores?” Ao que respondemos: “Para Santiago”. “Están en el camino equivocado. Tienes que volver y coger el camino hay al pie de Cebrero!” Cabreiros, agradecemos e encaramos os dois quilômetros de volta. Pura subida. Quando estávamos chegando ,comecei a rir, e o Back me falou: “Pô meu, só subida depois de errar o caminho e tu ainda ficas rindo?”. “Lembras da frase da italiana no albergue, outro dia? O cara que ensinou para ela tinha razão. Errar o caminho tudo bem. Mas a volta é foda!Daí a graça”.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Momento Político

“E aí, Gordura, o que achaste da posse da presidente?”, perguntei. Ao que ele respondeu: “Pela cor das bandeiras, na posse, lembrei da minha juventude balançando a da TFP, considerada de direita e pautada nos valores: tradição, família e propriedade. Esta esquerda que está aí é muito parecida, ainda que os valores sejam antagônicos. A vida foi passando e eu cada vez mais acredito no que se dizia no Bucarein antigo: trocam-se as moscas, mas a caca continua a mesma! Está difícil de saber onde está a verdade. Não vejo construção que possa levar o País e a vida da gente para frente. Fico pensando que nós, brasileiros comuns, somos muito superficiais, e isto deixa espaço para os políticos/marqueteiros ligados fomentarem discussões que desviem nosso pensamento para coisas sem importância. Por exemplo: bombou nas redes sociais o look da presidente na posse. Daí me pergunto: por que todos prestaram atenção no que ela vestia? O fato de ela ser ou não elegante não tem a menor importância. Acho que o marqueteiro fez de propósito. A tragédia fica na roupa que fomenta comentários por um mês, e nós esquecemos da Petrobras e do novo ministério, montado no sistema de partilha com os caciques dos partidos que a apoiam. Olho para a composição do ministério com a maior boa vontade, mas não vejo alguém reconhecido na sua área de atuação. Pelo contrário. Um ou outro técnico misturado a políticos, influentes nas suas legendas, cujo principal mérito é somente este, e parece que o critério do conhecimento não conta. Será que não existe no Brasil para o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação alguém do ramo? E para a Pátria educadora, mote forte e certo da presidente, alguém reconhecido por uma vida dedicada à educação? E no esporte, na agricultura, na pesca e assim por diante. Está difícil de acreditar, meu irmão. Este momento me lembra de um ditado a ser seguido: quando alguém apontar para as estrelas, olhe para elas e não para as unhas de quem aponta, para ver se estão sujas! Olhar para as vestes é olhar para as unhas! O que se deve fazer é olhar para quem vai ajudar a dirigir o País, pelos próximos anos, e, pelo visto, rezar!”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Reminiscências

Cortava meus cabelos desde sempre na barbearia do velho Ernesto, com ele e, depois, com o Zé Ramos, na Joinville antiga e que ficava na esquina da Procópio Gomes com a Ipiranga. Depois de anos, e eu já estava em “outras plagas” estudando, o Ramos montou sua barbearia no mercado municipal, onde se encontra até hoje, agora acompanhado dos filhos que herdaram dele a mesma profissão. Sábado destes, fui ao mercado e, como sempre faço, passei para dar um abraço no velho Ramos. Entrando na barbearia, lotada como sempre, encontrei o Gordurinha sentado esperando a sua vez. – Cara, nem te conto – falei. – Outro dia, estava no Café Passado, simpático bistrô de Laguna, junto à praça de Anita, quando a Téia, dona do bistrô, me perguntou: “professor, a piada deve ter sido boa, socializa com a gente?” Olhei pra ela e disse: “não entendi”. Ela, sorrindo, falou: – Desculpe, professor, mas estavas sorrindo sozinho e fiquei curiosa do porquê. – Ah – disse eu: – Reminiscências de infância. Estava olhando para aquele casal lá daquela mesa e lembrei do meu brother Gordurinha e de uma gaiola onde ele tinha preso uma gaipava e uma cambacica. Eu nunca sabia quem era quem, e sempre lhe perguntava. Ele, invariavelmente, respondia: “de novo, Pirulito. Já te disse que não importa saber isso. Importa que elas comam, bebam, cantem e pareçam alegres, mesmo estando na gaiola. Gostaria de soltá-las mas já nasceram cativas e morreriam se tivessem que sobreviver sozinhas”. Ela me olhou com cara de espanto, pois não entendeu a metáfora. Então, eu lhe disse: – A semelhança é que, olhando aquele casal, tal qual acontecia com os passarinhos, não consigo identificar qual é a cambacica e qual a gaipava. E isso me fez voltar aos velhos tempos. Os tempos de hoje estão mudados e, ao olhar para eles, lembrei da filosofada do Gordurinha: importa que elas comam, bebam, cantem e parecem alegres, mesmo estando na gaiola. E essa lembrança da infância é que me fez sorrir. – É a tua vez, Gordurinha – disse o Zé Ramos. – Beleza, Brother, até a próxima, fui!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Emoções

Ontem foi dia de grandes emoções.......... Obrigado aos formandos de Arquitetura e Urbanismo, 2015/1, UDESC/Laguna, pelo honroso convite para ser PATRONO da turma........foi muito significativo receber o convite feito por voces e, principalmente, em sala de aula de outra turma.....voces não imaginam a importância deste ato de reconhecimento.... Depois tive outra surpresa....a homenagem por professores, tecnicos e inumeros alunos após encerrar a minha última aula oficial como professor da UDESC ...34 anos como professor desta importante instituição do Estado de Santa Catarina... Obrigado a todos que participaram da homenagem ....me aposento da UDESC, mas não da vida e que venham novos desafios...... Cada lágrima, cada olhar, cada carinho e cada abraço apertado fez passar um filme na minha cabeça.......aos dez anos de idade (52 anos atras) eu iniciava a minha vontade de ser engenheiro, quando ia do Bucarein ao centro de Joinville, estudar no Colégio Bom Jesus, diga-se de passagem com bolsa de estudo, e admirava a construção da Catedral....ali começava a vontade de ser Engenheiro Civil....até hoje muito se passou e por muito tempo dividi projetos e obras com as aulas no curso de Engenharia Civil da UDESC/Joinville e nos últimos cinco anos no de Arquitetura e Urbanismo da UDESC/Laguna. Como sempre digo, a vida é uma curva senoidal. Chegou a hora da inflexão, da mudança de onda, conciente de que a mudança de onda faz parte das nossas vidas, visto que ela ocorre naturalmente na natureza, como podemos observar nas ondas do mar, do som, da luz........ Obrigado a todos que participaram desta parte da minha história de vida...de muitas alegrias e, também, de tristezas...de muitas vitórias e também de derrotas...vida real...de sonho sonhados...uns realizados e outros por realizar..... Valeu cada momento vivido com voces em Laguna e como sempre digo, fui muito feliz aqui pessoalmente, com o que realizamos no CERES e pelo que deixamos para esta cidade........ Quero por último agradecer pela musica que voces colocaram no filme que fizeram pra mim....inclusive com as fotos minhas e da Albertina. Foi um tiro certeiro! De Volta Pra Casa Cássia Eller Mudaram as estações Nada mudou Mas eu sei que alguma coisa aconteceu Tá tudo assim tão diferente Se lembra quando a gente chegou a um dia acreditar Que tudo era pra sempre, sem saber Que o pra sempre, sempre acaba Mas nada vai conseguir mudar o que ficou Quando penso eu alguém, só penso em você E ai então, estamos bem Mesmo com tantos motivos Pra deixar tudo como está Nem desistir, nem tentar agora Tanto faz Estamos indo de volta pra casa Obrigado a cada um que esteve comigo ontem de corpo presente e aos que estavam em espírito....... Aqueeeeeeellllle abraçooooooooooooooooo.............

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

FALSIDADES

“Alemão, te arruma que vais ao enterro do Zé da Carmela comigo”, disse meu pai. “Eu que tinha 13 anos e não era chegado a enterros, argumentei: Oh pai, me tira desta”. “Não, pois já está na hora de encarar aquela que é a grande realidade da vida. A morte!” Lá fomos nós. Entramos na casa da Carmela e, depois das condolências, estacionamos num espaço de onde se via o Zé. Estático. Lívido, com fisionomia tranquila. Foi uma boa pessoa. Ato contínuo entra na sala o Juca da Arminda, conhecido como “Bosta de Vaca”. Cumprimentou a Carmela, a viúva e os filhos com abraços e beijos faciais. Postou-se ao lado do caixão e, parecendo emocionado, derramou lágrimas face abaixo. “Pai, porque o apelido dele é Bosta de Vaca? Ele parecia emocionado com a morte do amigo”. “Porque aquele é do tipo de gente que mata e chora no enterro da vítima. Por fora seco e por dentro mole e fedorento. Aprenda uma coisa: Quando o crocodilo engole uma presa, ele chora, mas, não significa que esteja sentindo pena. Daí a expressão "lágrimas de crocodilo", que quer dizer que, embora a pessoa chore, suas lágrimas não significam que esteja sofrendo, mas sim fingindo.” “Já que falastes disso, sabes por que se diz abraço de tamanduá?”, perguntei. “Esta é outra expressão que significa falsidade. Quando você recebe abraço de uma pessoa que quer o teu mal, dizemos que essa pessoa está dando um “abraço de tamanduá, porque ele abraça suas presas e crava em suas costas suas garras mortais”. “Mas pra mim, disse ele, a pior falsidade é o ósculo de Judas. Judas ao vender o mestre por 30 moedas combinou com os soldados romanos, que o traído era o que recebesse dele um beijo na face. Claro que Jesus sabia da traição, mas não se abalou. Nesta vida muitas vezes serás traído, mas o importante é não se abalar. Quando a pessoa é falsa contigo, ela chega ressabiada, não olha nos teus olhos devido ao peso na consciência. Aguente firme! A vida é como o eco. O que a gente emite volta pra nós, da mesma forma e intensidade. Por isto, Alemão, lance sempre o bem, que terás o mesmo de volta, mas mesmo assim te prepares para receber dos teus “Bostas de Vacas”, Lágrimas de Crocodilo, Abraços de Tamanduá e Ósculos de Judas!”

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Meu caminho

Em Julho fiz o Caminho. Eu e mais dois amigos partimos de Saint-Jean-Pied-de-Port, cidade francesa aos pés dos Pirenéus, para Santiago de Compostela, noroeste da Espanha. 815 Km andando. Em Santiago repousam os restos mortais de Tiago Maior, um dos doze apóstolos de Jesus, guardados numa arca de prata no porão da Catedral dedicada ao Santo. Do surgimento do templo à formação de uma importante rota de peregrinação foi um passo. Peregrinos acorrem de todo o mundo. Uns vêm por Portugal, pelo chamado Caminho Português; outros vêm do restante da Europa formando diversos trajetos, sendo o mais célebre o Caminho Francês, o que fizemos. No dia 7 de julho, estávamos em Nájera, município da região que dizem ter o melhor vinho espanhol, a de La Rioja. Todos os dias, após 9 horas de caminhada, procurávamos um albergue para dormir. Como nos municipais não têm televisão, resolvemos ficar em um privado. Afinal, tinha jogo do Brasil. Na hora marcada, os interessados pelo jogo estavam reunidos no refeitório do albergue. Três italianos. Dois espanhóis. Três franceses. Cinco alemães e nos, três brasileiros. Conversa vai e vem, um dos Italianos me pergunta como eu acho que vai ser o resultado. Respondo que não sei, mas espero que o Brasil jogue bem apesar de reconhecer que o time alemão é muito bom. Um dos espanhóis comenta que o Brasil perderá, pois o time é dirigido por um técnico empafioso e ultrapassado e completou: “chegou até aqui por sorte!”. “Tá bom, vamos ver!”, pensei. Começou o jogo e o alemão sentado ao meu lado, entre um gole de “San Miguel”, cerveja espanhola, e outro, batia na mesa e vibrava. Eu sentindo o sufoco, fiquei pasmo, olhando sem acreditar no que estava acontecendo. Só dava os “tedescos”, diziam os italianos. “Zupa” gritou o alemão! Um a zero! Zupa! Zupa! Zupa! Zupa! Nestas alturas eu já entendia “Chupa!”. De imediato lembrei-me do Gordurinha ditando as regras das nossas peladas no campinho de areia, do bairro Bucarein, na nossa Joinville: “cinco vira, dez acaba!”. Acabou o primeiro tempo, dei uma enrolada, me levantei e disse: “Je me vais dormir”. “mañana tengo el camino” . “Gute nacht!” Todos riram. Subi as escadas e enquanto escovava os dentes: “Zupa”, escutei o alemão gritar. Seis! Coloquei o protetor auricular, como se deve fazer em um albergue para não escutar roncos, gemidos e afins, e dormi. Sai antes de o dia amanhecer e só fui saber o resultado três dias depois, quando passamos por outros alemães e eles não se contiveram ao verem a bandeira do Brasil na mochila do meu parceiro de viagem e gritaram: “sieben und kleine war” (sete e foi pouco!”). Pela gargalhada deu pra imaginar o que diziam. Apertei o passo e sumi!

terça-feira, 17 de junho de 2014

O FANATISMO DAS TORCIDAS

– E aí, Gordurinha, empolgado com a Copa? – perguntei. – Pô, Pirulito, tu sabes que gosto de futebol, mas que não torço por time nenhum. Aliás, para ser sincero, torço sempre para o ganhador. Não tenho problema nenhum em começar o jogo corintiano e acabar palmeirense. O carinha troca de casa, de carro, de emprego e até de parceira, e não troca de time de futebol? Burrice. Torcer para um time só te torna fanático. Quando vejo o fanatismo das torcidas fico meio arredio em frequentar estádios. Imagina ir ver o time que gosta e morrer com um vaso sanitário na cabeça, lançada por um fanático qualquer, como aconteceu em Recife? – Pois é, brother, que loucura. – O amor pelo futebol pode ser aceitável, mas, em vez de ser encarado como um lazer, acaba sendo, por muitos torcedores fanáticos, um desatino exagerado, virando doença, e aí não dá. Não consigo entender carinhas, na maioria das vezes financeiramente ferrados, viajando para assistir a jogos do seu time em outros Estados. Tem cara que ganha uma camisa com as cores do maior adversário e não veste. Neguinho coloca a amizade em risco se o outro falar mal do seu time. Até acho que futebol é saudável enquanto é tratado como lazer e prazer, mas entendo que colocá-lo como uma crença, tornando-se fanático, leva o indivíduo a agir irracionalmente. Vira um comportamento doentio, no qual o mundo gira apenas em torno do futebol e de seu time. Estou fora! Retruquei: – Cara, por falar nisto, eu tinha um casal de amigos que a mulher era louca pelo Vasco. Um domingo qualquer, fomos almoçar juntos e, ao voltarmos para a casa deles, vimos a porta da casa arrombada. Como manda o figurino, entramos devagarinho, até nos certificarmos que os larápios já tinham se evadido. De repente, escutamos um grito da mulher dele: “Flamenguista nojento!” Corremos até o quarto onde ela estava. Vascaína doente, daquelas de escutar o jogo com o radinho de pilhas grudado na orelha esquerda, porque na direita dava azar, estava petrificada olhando para a cama. Rapaz, que imagem patética. Acho que o larápio, pelo feito, era mesmo flamenguista. A cena era dantesca: a camisa do Vasco estendida sobre a cama do casal e em cima uma horrorosa obra. Ainda por cima, era um ladrão pândego e cagão. Meu amigo até hoje paga analista para a mulher dele, pois a visão daquele ato, para uma torcedora fanática, é coisa que só análise resolve. Cena para se dar uma bela gargalhada, mas quem teria coragem? Não sairia dali vivo!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Em que 1964 te influenciou?

Como as polêmicas do momento são a Comissão da Verdade, a revolução de 1964, comunismo, esquerda, politicamente correto e corrupção, perguntei a alguns sessentões amigos meus: “Já que, como eu, viveste grande parte da vida no regime de exceção, no que isto te influenciou?” Invariavelmente, todos responderam: “Em nada!” Coincidiu com o que penso. Eu tinha 12 anos em março de 1964. O que fiz neste período: joinvilense que sou, estudei o primário no Rui Barbosa, o ginásio no Bom Jesus (com bolsa de estudo oferecida pela grande mestra Ana Maria Harger), o técnico em metalurgia na Escola Técnica Tupy e engenharia civil na Escola de Engenharia de Piracicaba, SP. Nunca me incomodei com os militares, nunca fui preso nem torturado. Dirão os jovens que não viveram este período – mas que se baseiam na leitura dos que estavam no exílio, fazendo intercâmbio e que voltaram e estão indenizados e aposentados, ou mesmo daqueles que aqui ficaram e resistiram fazendo política de oposição – que fui um alienado. Pode ser. Mas também posso dizer que conheci, quando estudava engenharia em Piracicaba, vários ideólogos de escrivaninha que queriam nos convencer que deveríamos lutar pela democracia, mas não nos diziam qual era ela, pois ninguém me impedia de nada que não fosse ilegal naquele regime. Estudei, estagiei, me diverti, viajei de carona por vários Estados, conheci muitas pessoas, me formei, trabalhei muito, casei, tive filhos e não vi nada ou ninguém que me proibisse de nada. Não sei dizer o que aconteceria se o tal comunismo que pregavam os que queriam nos convencer a entrar no esquema realmente tivesse acontecido. Se eu pensar neste povo que tem governado o Brasil nos últimos 20 anos e que estava por trás do movimento contra 64, acho que influenciaria para pior, pois hoje o que vemos é um liberalismo absurdo, uma falta de consciência e de civismo, um vale-tudo assustador. No governo militar, e ninguém pode falar o contrário, vimos o Brasil fazer quase todas as hidrelétricas que hoje abastecem o País de energia. Vimos surgir universidades. Vimos a construção de boas estradas. Eu mesmo trabalhei na Rodovia do Açúcar, no Estado de São Paulo. A única coisa que não fazíamos era votar para presidente, que foi o mote para terminar com o regime militar. Pois bem, passamos a votar. Collor, FHC, Lula e Dilma. Hoje, podemos fazer o que não podíamos (ou quase podemos?), falar mal e criticar os presidentes. Mas, em compensação, o resto das notícias é só sacanagem e de todos os tipos, mas sempre com um foco só: o de locupletação com o dinheiro público

domingo, 16 de março de 2014

Discurso Paraninfo Arquitetura UDESC – Laguna

Discurso Paraninfo Arquitetura UDESC – Laguna Anselmo Fábio de Moraes / 15/03/2014 Quando o Alexandre foi na minha sala e me convidou para a formatura desta turma especial, tive um imenso prazer em receber o convite, pois a deferência de ser convidado pessoalmente para este grande ato da vida de voces, dos seus pais e porque não dizer da nossa, seus professores, é um prêmio. A gente convive pelo menos cinco anos e quem se envolve, se interessa e participa da vida e da formação de seus alunos, não tem como não se emocionar. No entanto, após ele sair, eu fui ler o convite. Ai a emoção foi muito maior. Eu estava sendo convidado para ser o Paraninfo da turma e não tinha entendido. Adoro a vida, pois nela existem coisas que se repetem mas, mesmo sendo repetição, são como se fossem a primeira vez. Ser paraninfo de uma turma de formandos sempre vai parecer ser a primeira vez. Não lembro quantas vezes já fui, nestes meus trinta e três anos de UDESC, mas posso garantir para vocês, esta tem a sensação de única. E é, porque esta turma é especial, única. A alegria profunda que senti ao ler o convite, só não foi maior por que o Alexandre já tinha saído e não pude dar nele aquele abraço apertado de agradecimento. Mas pude ver, num filme relâmpago a fisionomia de cada um de voces, das aulas, das festas de amigo secreto nas épocas natalinas e do carinho e respeito com que sempre nos tratamos nos corredores e salas, da nossa escola. Talvez, quando decidiram me convidar nem imaginavam a satisfação que me dariam, pois no meu entender, ser paraninfo de uma turma é o ápice para um professor, é a láurea máxima que este pode receber. Por isto agradeço a vocês pela deferência. Senhores pais: obrigado por incentivarem seus filhos a virem para Laguna e cursarem Arquitetura e Urbanismo na universidade dos catarinenses. Podem ter certeza que eles estão preparados para o mercado de trabalho. Gostaria de parabeniza-los, também, pelos filhos que vocês têm. Nós que convivemos estes últimos cinco anos com eles sabemos da índole, do caráter e do potencial de cada um deles. Recorro a Gibran Khalil Gibran, que escreveu sobre os filhos no livro “O Profeta”, para vos homenagear: Vossos filhos não são vossos filhos, dizia ele. São os filhos da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não são de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e estica com toda a sua força, para que suas flechas se projetem rápidas e certeiras. E eu completo: que bons arqueiros sois vós, pois ao vermos estes jovens, nesta noite, terminando com júbilo esta faze da vida, podemos dizer que vocês acertaram o alvo. E é só isso, que todos nós pais, sempre queremos. Senhores pais: são vossos filhos que estão na berlinda, na carruagem dos sonhos, mas esta noite também é de vocês. Celebramos neste momento o sucesso deles, mas não menos o da educação que deram a eles. Eles estão formados, arquitetos e urbanistas e daqui partirão para conquistar o mundo, portanto, respirem fundo, libertem a emoção, sorriam, chorem. Vale tudo neste momento de alegria! Meus queridos apadrinhados: O que estamos fazendo aqui hoje é um rito de passagem, enrijecido pela dor da despedida mas, esperançoso pelo início de uma nova fase na vida de voces! Gostaria de relembrar que todos nós viventes deste mundo, sempre desejamos viver uma boa vida, feliz, prazerosa e vitoriosa, mas, só a conseguiremos se nos esforçarmos, trabalharmos com afinco e, principalmente, se formos éticos, preservando bons valores e o aprendizado que recebemos de nossos pais, desde que saímos do berço. Esta fase da qual vocês se despedem hoje, teve as dificuldades que pertencem a ela. A próxima fase, digo do alto dos meus mais de sessenta anos de idade e de quase quarenta de engenharia, terá outras responsabilidades, outros compromissos e, de certeza, será mais trabalhosa e, consequentemente, parecerá mais difícil! Um dia lembrarão como foi doce esta fase que hoje se encerra. Na minha Joinville existe um doce alemão, recheado de maçã, chamado apfel strudel: esta fase foi a de comer a maçã. A partir de amanhã, sinto-vos dizer, passarão a comer a massa. Mas não se preocupem, vocês têm lastro para superá-la, visto que estão bem formados. Vocês, tenham orgulho, são filhos da UDESC! Esta nova caminhada pode ser boa também, trabalhosa sim, mas se vocês agirem com sabedoria, humildade e amor pelo que fizerem, pela profissão que escolheram, ela será boa. Tenham certeza disto. Amar sua profissão e fazer com prazer suas tarefas sempre vos dará prazer. Deixará a vida leve e satisfatória. Quando vos sentires sós, tristes ou achando que não existe luz no fim do túnel, não se desesperem. Eu sei que não é fácil, mas também sei que a vida é uma curva senoidal. Um dia estamos por cima e outros por baixo. E é importante saberem disto, porque se levarem isto como valor de vida e respeitarem, agirem com amor e gentileza quando a curva está no seu lado positivo, sempre, terá um ombro amigo quando a fase negativa chegar. E é nele que deverão se apoiar. Não tenham medo de buscar seus sonhos. Inspirem-se em Fernão Capelo Gaivota. Richard Bach quando escreveu a história desta gaivota, igual no formato, mas diferente das outras de sua espécie no modo de agir e pensar, e que era inconformada do voar comum apenas para conseguir comida, quis nos dar alento. Fernão se preocupava com a beleza do voo, em aperfeiçoar sua técnica para executar voos cada vez mais perfeitos, seguindo muitas vezes na contra mão dos conceitos consolidados. Comportamento difícil e muitas vezes não entendido. Mas ela não desistia de buscar seu sonho porque ela sabia que podia mais. Com foco, determinação, criatividade e muito suor vocês conseguirão sucesso como Fernão conseguiu. Acredite “Voa mais longe a gaivota que persiste mais e sempre tenta voar mais alto.” Quanto ao serviço, façam bem feito! Não importa o tamanho! Façam bem feito! Façam com amor, pois só assim vocês tirarão proveito e satisfação do que fizeram e o tempo parecerá mais leve. Porque querendo ou não ele passa e, no balanço final, a gente será lembrado pelo que fez, pelo que deixou de legado! Por último, meus queridos: não se esqueçam de ser felizes. Voem alto, mergulhem fundo, procurem sempre um novo caminho. Tentem, recomecem, insistam. Não desistam nunca. O que de pior podemos fazer é não tentar, desistir antes de começar! Valorizem suas conquistas, reconheçam e agradeçam a quem lhes ajudam na caminhada, desde as pessoas mais simples até aquelas que estão hierarquicamente acima de vocês. Sejam sensíveis, sejam humildes e, principalmente, sejam felizes. Encerro dizendo que não esqueçam o que disse John Lennon: “A vida acontece enquanto fazemos planos”. Portanto: façam planos, mas não se enrosquem neles. Vivam! Sigam em paz. Sejam esforçados, criativos, tolerantes, justos, honestos e éticos. Tenham sucesso, mas não esqueçam, nunca, que o preço do sucesso é o suor! Que o Grande Arquiteto do Universo abençoe e guarde todos nós! Boa noite!