36 horas de viagem e estou na Austrália. A gente ouve muito falar dela e, como meu filho Diego, assim como muitos filhos de brasileiros que procuram um lugar melhor para fazer a vida, vive aqui, vim conferir. Segundo conta a história, a colonização da Austrália pelos ingleses começou com o objetivo de esvaziar as cadeias superlotadas da Inglaterra.
Com a independência dos Estados Unidos, ela teve que parar de mandar condenados para a América e começou a enviá-los para a nova terra conquistada. A primeira frota, com 11 embarcações e aproximadamente 1,3 mil pessoas, organizada para colonizar o continente, atracou em terras australianas em 18 de janeiro de 1788, e durou como colônia penal até 1868.
Sabe aquele ditado que a gente está cansado de ouvir? O Brasil é novo ainda! Cai por terra quando vejo um país com pouco mais de 200 anos de idade, ou seja, com menos da metade da idade do Brasil, teoricamente em níveis tecnológico e industrial semelhantes ao nosso, apresentar excelentes resultados, comparados internacionalmente, em relação à saúde, expectativa e qualidade de vida, desenvolvimento humano, educação pública e segurança. A Austrália está entre os países com melhores índices de desenvolvimento humano do mundo e suas cidades situam-se entre as melhores em termos de habitabilidade, oferta cultural, mobilidade, acessibilidade, ou seja, em qualidade de vida.
Sydney, a cidade em que estou e onde começou a Austrália, tem hoje em torno de 4,5 milhões de habitantes e me deixou impressionado pela beleza, estrutura e planejamento urbano. Uma cidade espalhada, arborizada, com edificações baixas e algumas áreas concentrando altos edifícios. Avenidas largas e trânsito fluindo fácil. Extensas áreas verdes em parques enormes. Transporte marítimo, trem, VLT, táxis, ônibus em suas faixas, ciclistas com capacetes obrigatórios, em ciclovias e calçadas amplas, fazem a acessibilidade e a mobilidade ficar muito fáceis.
Como diria meu amigo Gordurinha: um show. A pergunta que me corrói é: como um lugar que foi formado por prisioneiros deportados, em 200 anos construiu um país organizado, estruturado, sério e de belas cidades e nós, no Brasil, em 500, agraciados por Deus com uma terra maravilhosa e que tem de tudo, não conseguimos sair deste marasmo?
quinta-feira, 28 de julho de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Histórias do Bucarein
“Não gaste velas com mau defunto” era um dos ditados que o Chico do Ernesto nos falava quando a gente ficava remoendo impropérios contra alguém que nos desaforava. Ele adorava nos ensinar por aforismos.
Mas legal mesmo era escutar as histórias que ele e outros frequentadores do seu bar, como Ronald Kavanach, Jacaré Diniz, Tavinho Carsten, Nenê Castelhano, Nêgo Alemão e Caneta, contavam sobre suas infâncias vivenciadas nos primórdios do bairro. Histórias passadas no Bucarein às margens do Cachoeira, no tempo em que suas águas eram límpidas e serviam de regalo para refrescantes mergulhos da meninada.
Outra boa lembrança que trago daquela esquina da Procópio Gomes com Plácido Olímpio é a dos sambas cantados pelos frequentadores e, principalmente, do som mágico do bandolim tocado pelo falecido Bera, acompanhado do Loli, no violão de sete cordas, e do Nêgo Buião, no pandeiro. Ainda sei de cor vários sambas que aprendi com aquelas pessoas simples e felizes, como Emília, Helena e Amélia, tocadas e cantadas entre um gole e outro de uma gelada “faixa azul” da Antarctica, e da degustação de “Jabiru” e “Colonial”, as cachaças da época.
As rodas de samba eram sempre às sextas-feiras, depois das seis da tarde, horário em que chegavam os estivadores: Melão, Bileca, Antonio Mendingo, Arriola, Barata e Baratinha, Nano Tartaruga, Zé Castelhano e muitos outros, para receberem o pagamento das mãos do Chico por terem trabalhado a semana inteira carregando as embarcações (conhecidas como chatas) com madeira.
Depois de receberem o pagamento, se deleitavam em boa conversa e dava gosto vê-los sorverem alguns lisos e mercedinhos da “maldita”, como era chamada a cachaça, acompanhados de sardinha frita, siri ao bafo, ou mesmo de uma morcilha preta fatiada.
Nós, filhos da terceira geração do Bucarein (nascidos entre 1945 e 1960), crescemos no meio destes homens, hoje esquecidos, que ajudaram a fazer a história do bairro e de Joinville.
Hoje, quando volto a caminhar por ali, me dá saudade daquela infância sadia e fico pensando: que pena que as crianças e jovens de hoje não têm mais o Chico, nem os contadores de casos, nem os estivadores, nem o porto, nem as madeireiras, nem o rio limpo. De certeza, fomos mais felizes.
Mas legal mesmo era escutar as histórias que ele e outros frequentadores do seu bar, como Ronald Kavanach, Jacaré Diniz, Tavinho Carsten, Nenê Castelhano, Nêgo Alemão e Caneta, contavam sobre suas infâncias vivenciadas nos primórdios do bairro. Histórias passadas no Bucarein às margens do Cachoeira, no tempo em que suas águas eram límpidas e serviam de regalo para refrescantes mergulhos da meninada.
Outra boa lembrança que trago daquela esquina da Procópio Gomes com Plácido Olímpio é a dos sambas cantados pelos frequentadores e, principalmente, do som mágico do bandolim tocado pelo falecido Bera, acompanhado do Loli, no violão de sete cordas, e do Nêgo Buião, no pandeiro. Ainda sei de cor vários sambas que aprendi com aquelas pessoas simples e felizes, como Emília, Helena e Amélia, tocadas e cantadas entre um gole e outro de uma gelada “faixa azul” da Antarctica, e da degustação de “Jabiru” e “Colonial”, as cachaças da época.
As rodas de samba eram sempre às sextas-feiras, depois das seis da tarde, horário em que chegavam os estivadores: Melão, Bileca, Antonio Mendingo, Arriola, Barata e Baratinha, Nano Tartaruga, Zé Castelhano e muitos outros, para receberem o pagamento das mãos do Chico por terem trabalhado a semana inteira carregando as embarcações (conhecidas como chatas) com madeira.
Depois de receberem o pagamento, se deleitavam em boa conversa e dava gosto vê-los sorverem alguns lisos e mercedinhos da “maldita”, como era chamada a cachaça, acompanhados de sardinha frita, siri ao bafo, ou mesmo de uma morcilha preta fatiada.
Nós, filhos da terceira geração do Bucarein (nascidos entre 1945 e 1960), crescemos no meio destes homens, hoje esquecidos, que ajudaram a fazer a história do bairro e de Joinville.
Hoje, quando volto a caminhar por ali, me dá saudade daquela infância sadia e fico pensando: que pena que as crianças e jovens de hoje não têm mais o Chico, nem os contadores de casos, nem os estivadores, nem o porto, nem as madeireiras, nem o rio limpo. De certeza, fomos mais felizes.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Liberdade de expressão
“A questionada e tão reprimida Marcha da Maconha é a evidência de como se interconectam os direitos constitucionais, todos merecedores do amparo do Estado. As autoridades, longe de transgredi-los, tinham que protegê-los, mostrando tolerância e respeito por quem está em espaço público pretendendo transmitir mensagem de abolicionismo penal”, afirmou Celso de Mello (Diário de Pernambuco.com.br).
O Gordurinha é demais. Dia destes, encontrei-o sorrindo. Estranhei, pois ultimamente só o encontro acabrunhado e reclamando das coisas que acontecem no Brasil de hoje. O que é que houve, Gordura, para estares tão radiante?
– Meu irmão, estou salvo. Eu já andava meio com medo de sair na rua. Manja a tal da síndrome do pânico? A minha sorte é que converso comigo mesmo e faço a catarse das neuras. Sabes como é, sou branco e heterossexual, e ainda por cima adepto da tradição, família e propriedade (TFP). E sabes, também, que se nos manifestamos, logo somos tachados de politicamente incorretos, racistas, homofóbicos ou neonazistas. Lembras daquela minha camiseta que tenho, escrito: “Hetero e 100% Ariano” e que nunca usei por medo de ser chamado de homofóbico e racista? Rapaz, agora vou poder usar!
– Estás louco, Gordura, vai dar rolo!
– Nada. Não vistes a resposta do Supremo ao pedido de liberação da Marcha da Maconha? O relator foi claro: defendeu que o Estado tem a obrigação de proteger a liberdade de expressão e que jamais deve interferir nesses direitos, garantidos pela Constituição. É livre a manifestação do pensamento sobre qualquer assunto. Foi taxativo: “Nada se revela mais nocivo e perigoso do que a pretensão do Estado de reprimir a liberdade de expressão, principalmente de ideias que a maioria repudia. O pensamento deve ser sempre livre”. Afirmou, também, que a polícia não tem o direito de intervir em reuniões pacíficas e lícitas em que não haja lesão ou perturbação da ordem pública. “Longe dos abusos que têm sido perpetrados pelo aparato policial, é preciso adotar medidas de proteção aos participantes, os resguardando das tentativas de oficiais e particulares de desmanchá-las.” Tu não achas que se serve para a “esquadrilha da fumaça”, serve, também, para todos os outros casos? Este ministro é o cara! Tirei a camiseta do armário e já pedi para a “nega” dar um trato, pois vou usá-la sem fobia!
O Gordurinha é demais. Dia destes, encontrei-o sorrindo. Estranhei, pois ultimamente só o encontro acabrunhado e reclamando das coisas que acontecem no Brasil de hoje. O que é que houve, Gordura, para estares tão radiante?
– Meu irmão, estou salvo. Eu já andava meio com medo de sair na rua. Manja a tal da síndrome do pânico? A minha sorte é que converso comigo mesmo e faço a catarse das neuras. Sabes como é, sou branco e heterossexual, e ainda por cima adepto da tradição, família e propriedade (TFP). E sabes, também, que se nos manifestamos, logo somos tachados de politicamente incorretos, racistas, homofóbicos ou neonazistas. Lembras daquela minha camiseta que tenho, escrito: “Hetero e 100% Ariano” e que nunca usei por medo de ser chamado de homofóbico e racista? Rapaz, agora vou poder usar!
– Estás louco, Gordura, vai dar rolo!
– Nada. Não vistes a resposta do Supremo ao pedido de liberação da Marcha da Maconha? O relator foi claro: defendeu que o Estado tem a obrigação de proteger a liberdade de expressão e que jamais deve interferir nesses direitos, garantidos pela Constituição. É livre a manifestação do pensamento sobre qualquer assunto. Foi taxativo: “Nada se revela mais nocivo e perigoso do que a pretensão do Estado de reprimir a liberdade de expressão, principalmente de ideias que a maioria repudia. O pensamento deve ser sempre livre”. Afirmou, também, que a polícia não tem o direito de intervir em reuniões pacíficas e lícitas em que não haja lesão ou perturbação da ordem pública. “Longe dos abusos que têm sido perpetrados pelo aparato policial, é preciso adotar medidas de proteção aos participantes, os resguardando das tentativas de oficiais e particulares de desmanchá-las.” Tu não achas que se serve para a “esquadrilha da fumaça”, serve, também, para todos os outros casos? Este ministro é o cara! Tirei a camiseta do armário e já pedi para a “nega” dar um trato, pois vou usá-la sem fobia!
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Azaleias
Existem certas coisas que não há como entender. Parecem coisas de quem não tem o que fazer ou de gente que está com as ideias fora do lugar.
Passar na avenida JK e ver as retroescavadeiras retirando as azaleias foi de doer. Quando a gente pensa que o estoque de sandices esgotou, pimba: lá vem um iluminado da Prefeitura com uma nova. Tenho que reconhecer que quem está “cuidando” de Joinville tem se superado diariamente.
Na imprensa, leio que o projeto é uma forma de revitalizar a via e torná-la mais arejada; que o trecho é escuro e fechado por causa das árvores e da altura das azaleias. Querem dar uma cara nova à avenida, por ser uma das principais de Joinville.
Só pode ser gozação. Trocar uma cerca viva, que vem cumprindo a sua função há anos, por uma de ferro, e as flores permanentes da azaleia por flores de época induz claramente a desperdício de recursos públicos e a um conceito do construir o espaço urbano desprovido de lógica e de fundamentação teórica e prática.
A azaleia é conhecida pela sua resistência à poluição do ar, portanto, adequada àquele local que tem intenso fluxo de veículos e está ali há anos formando uma cerca viva, protegendo os motoristas no encontro das luzes dos veículos, impedindo a travessia de pedestres por lugares impróprios, purificando o ar pela fixação de poeiras e fotossínteses de gases, reduzindo a velocidade de ventos, favorecendo a infiltração de água no solo, servindo de abrigo à fauna e amortecendo ruídos. Enfim, exercendo uma função ecológica, no sentido de melhoria daquele ambiente urbano, e estética, no sentido do embelezamento daquela via pública e, consequentemente, da cidade.
Então, por que cortá-las? Pelo que se lê, para substituí-las por plantio de flores de época, baixas e coloridas, e instalação de cerca de ferro a um custo de R$ 186 mil.
Para quem alega ter uma prefeitura sem recursos e endividada, mexer no que está quieto, fazendo obra deste tipo, ainda mais sabendo que se criarão novas despesas, visto que flores de época trocam-se de quatro em quatro meses (o canteiro da JK tem em torno de 1.050 m² que terão perto de 21 mil mudas a cada troca), há uma baita incoerência. Parece até que o prefeito procura fazer alguma obra, só para dar “satisfação” aos joinvilenses bocudos que ficam dizendo que ele não faz obra nenhuma.
Passar na avenida JK e ver as retroescavadeiras retirando as azaleias foi de doer. Quando a gente pensa que o estoque de sandices esgotou, pimba: lá vem um iluminado da Prefeitura com uma nova. Tenho que reconhecer que quem está “cuidando” de Joinville tem se superado diariamente.
Na imprensa, leio que o projeto é uma forma de revitalizar a via e torná-la mais arejada; que o trecho é escuro e fechado por causa das árvores e da altura das azaleias. Querem dar uma cara nova à avenida, por ser uma das principais de Joinville.
Só pode ser gozação. Trocar uma cerca viva, que vem cumprindo a sua função há anos, por uma de ferro, e as flores permanentes da azaleia por flores de época induz claramente a desperdício de recursos públicos e a um conceito do construir o espaço urbano desprovido de lógica e de fundamentação teórica e prática.
A azaleia é conhecida pela sua resistência à poluição do ar, portanto, adequada àquele local que tem intenso fluxo de veículos e está ali há anos formando uma cerca viva, protegendo os motoristas no encontro das luzes dos veículos, impedindo a travessia de pedestres por lugares impróprios, purificando o ar pela fixação de poeiras e fotossínteses de gases, reduzindo a velocidade de ventos, favorecendo a infiltração de água no solo, servindo de abrigo à fauna e amortecendo ruídos. Enfim, exercendo uma função ecológica, no sentido de melhoria daquele ambiente urbano, e estética, no sentido do embelezamento daquela via pública e, consequentemente, da cidade.
Então, por que cortá-las? Pelo que se lê, para substituí-las por plantio de flores de época, baixas e coloridas, e instalação de cerca de ferro a um custo de R$ 186 mil.
Para quem alega ter uma prefeitura sem recursos e endividada, mexer no que está quieto, fazendo obra deste tipo, ainda mais sabendo que se criarão novas despesas, visto que flores de época trocam-se de quatro em quatro meses (o canteiro da JK tem em torno de 1.050 m² que terão perto de 21 mil mudas a cada troca), há uma baita incoerência. Parece até que o prefeito procura fazer alguma obra, só para dar “satisfação” aos joinvilenses bocudos que ficam dizendo que ele não faz obra nenhuma.
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