terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Apelidos

Vinha caminhando, outro dia, desligado das imagens da rua, mas pensando numa das coisas que me tem encucado: a neura coletiva que está se criando em torno de que tudo é racismo, bullying, assédio e, depois da presidenta, gênero. Você diz “bom dia a todos”, e logo vem alguém e corrige: “e a todas”. Ô, coisa chata. Todos sempre foram e serão todos, independentemente de sexo, cor ou nível social. Quando os cumprimento, estou cumprimentado os seres humanos ali presentes! De repente, meu brother Gordurinha me faz voltar ao mundo real. “E aí, irmão, cuidado pra não morrer atropelado. Estás no mundo da lua?” “Pô, cara”, falei, “estava mesmo”! “Estava pensando nesta onda de que tudo é bullying”. “O Chico do Ernesto estaria ferrado nestes tempos. Lembra? Ele via um de nós e já tascava um apelido. Pé de valsa, Pirulito, Vela do Jaci, Grilo e por aí vai.” “Ele olhava pra gente, via uma característica e pimba. Bulia com todos nós e nem por isto fomos parar em analista. Daí estava absorto porque pensava nisto”. “É, hoje não se pode apelidar ninguém”, diz o Gordura. “Antes os nomes eram simples mas o carinha deixava um furo e agente lascava logo um apelido. Hoje não dá. O sujeito se chama Richardleson, Uelkinson e tu tens que decorar o palavrão. Nas minhas aulas, nem faço mais chamada. Só passo a lista. Vai que leio um nome errado e o aluno me processa por bullyng?” “Pois, meu irmão”, falei, “outro dia assistia a apresentação de um trabalho de graduação e perguntei ao colega do lado: “quem é o aluno?” “É o Jacó”. Respondeu e emendou: “não lembras dele? Foi teu aluno!” “Me senti mau, pois, se tem uma coisa que prezo é saber o nome dos meus alunos. Demoro para decorar, mas no final do semestre sempre sei”. Voltando para casa quis me testar. Peguei meu álbum de formatura e comecei a ver se lembrava de todos os meus colegas da engenharia, formandos de 1975. “Pescoço, Caganeira Um, seu irmão Caganeira Dois, Bico, Samuca, Pão com Molho, Xeiroso, Caca, Baiano, Xilin, ih, deu branco. Dos outros, não lembrava os nomes. Quarente e oito na foto e só lembrei-me de uns. Por quê? Cheguei a conclusão: os outros não tinham apelidos!” “Isto é normal”, complementa o Gordura, “ São os tais alunos e colegas invisíveis. Aqueles que passam os cinco anos da faculdade e a gente não nota. Na maioria das vezes, por serem normais demais. Não são bulidos, nem sacaneados e nem participam das nossas esbórnias. “Pelo sim, pelo não, podes continuar me chamando de Gordura, Pirulito”! Partiu deixando-me com a dúvida: é melhor ter apelido e ser lembrado ou ser chamado pelo nome e esquecido?

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Gratidão e Respeito

Meus pais sempre me fizeram entender que estas palavras deveriam nortear minha vida. Fiz o mesmo com meus filhos. Se formos ao dicionário, veremos que gratidão significa reconhecimento por um bem que alguém nos fez. Quanto a respeito, significa apreço, consideração, deferência. Ver a prática destas duas palavras no dia a dia, nestes dias de esperteza em que vivemos, tem sido difícil. Tenho visto muita gente que esquece rapidamente uma ajuda recebida, assim como a pessoa que o favoreceu. Na primeira oportunidade que poderia retribuir, por achar que nunca mais vai precisar de ajuda, age com ingratidão e falta de respeito. Sempre digo, como engenheiro que sou, que a vida é uma curva senoidal. A curva do seno em um gráfico cartesiano, representada por frequências, tem a imagem de uma onda, ora por cima, ora por baixo do eixo que a conduz. Isso me faz lembrar, sempre, que em partes de nossas vidas estamos em evidência e, em outras, no ostracismo. Os ingratos e os desrespeitosos acham que a onda deles sempre estará em alta. Isso acontece em casa, em relação aos pais e aos avós. Na iniciativa privada em relação aos ex-chefes e à própria empresa. Na vida pública, em relação a quem os alavancou para subir na carreira. É incrível como as pessoas, depois de conseguirem cargos, que nem mesmo nos melhores momentos de suas vidas imaginaram que alcançariam, esquecem-se de quem as ajudou. Ao atingirem postos elevados, pensam como se tivessem conseguido sozinhos, agem com falta de gratidão e de respeito com aqueles que lhes ajudaram. Outro dia ganhei um presente de meu amigo Theofanes e, pasmado, disse: “Cara, eu não mereço isto!”. Ele rapidamente me respondeu: “Mereces muito mais. Sempre me ajudastes e este agradecimento é mínimo pelo que já fizestes por mim e por muitos alunos teus”. “Desculpe, amigo, mas faço sem desejar nada em troca. Aliás, acho que já fizestes mais por mim do que eu por ti. Nestes dias de hoje, em que se veem muito mais ingratidão e falta de respeito, fico emocionado com o teu gesto”, disse a ele. “Infelizmente, isto é verdade”, me disse ele, “mas no meu dicionário de vida, não existem os antônimos de gratidão e respeito”. Fiquei matutando sobre estes dizeres e lembrando-me de pessoas que conheço e que se norteiam pelos antônimos. Uma pena, mas fazer o quê?

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Surpresa

“E aí, Gordura!” – diz o Pirulito – “que achaste do resultado das eleições? Deu para entender a virada do seu Udo?” “Pois, Pirula, a coisa foi esquisita. Cara, o Kennedy dormiu prefeito e acordou deputado. Lembrou aquela que o Vieira perdeu aos 45 minutos do segundo tempo para o Lula (o nosso)”. “É verdade, Gordura. Lembro bem. Aquele que mergulhou lá perto de São Francisco dizendo que era no rio Cachoeira. É ruim, hein? Nesta ninguém prometeu purificar o nosso rio, mas tomara que apareça um iluminado e convença o homem a começar o processo, devagarinho, para ver se um dia chega lá. Já pensou a gente, agora velhinho, como na nossa infância, no portinho do Bucarein, pescando umas corvinotas?” “Pois é, irmão. O homem ganhou na credibilidade, acho. O joinvilense se mostrou tradicional e votou no gerente. Ficou com medo de arriscar de novo, pois a experiência baseada na retórica foi traumática. Vai saber, de repente, o povo ficou com saudades do seu Freitag”. “Pô, meu, mas este não era só gerente. Além disto, tinha um time de primeira no secretariado. Uma galera que conhecia a cidade e dizem que ele os escutava”, diz o Gordura. “Realmente, por tudo que fez, devia saber se assessorar, mas o seu Udo, pela experiência de vida, também deve, não achas?”, resmunga o Pirulito. “Está com a faca e o queijo na mão. Não teve apoio no segundo turno, não deve favor a ninguém! Pode colocar no secretariado quem quiser. Pode escolher a dedo. Apesar de dizerem que é meio teimoso”. “Que nada. Alemão não é teimoso. Teimoso é quem teima com ele! Uma coisa que me deixa meio cabreiro é que entendo que Joinville não precisa só de gestor. Para a gente conseguir traçar uma linha de futuro, além de arrumar a inhaca que está a cidade, o alcaide tem que ser, também, sonhador, para não dizer utópico. Tem que inventar e reinventar o cotidiano, senão vamos ficar na mesmice”, diz o Gordura. “Sabes que já pensei nisso?”, vociferou o Pirulito. “Se ele não é muito de sonhar, deveria reforçar o Ippuj com reconhecidos urbanistas e formar um grupo de gente interessada e competente, que ouçam e codifiquem as vozes da cidade, para projetar a Joinville das próximas gerações. Fazer um plano científico, estruturado e embasado em cidades que fazem certo e adaptadas à nossa realidade”. “Concordo contigo, Pirula. Vamos torcer, pois o que interessa é termos qualidade de vida para nossa gente!”, diz o Gordura, encerrando a conversa. *Mestre em engenharia civil

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Parar é morrer?

Outro dia conversava com o Gordura, meu brother, e ele me perguntou: “E aí, vais parar de trabalhar quando?”. “Pô, brô, ainda é cedo!”, respondi. “Não consigo me ver aposentado, alisando pelo de gato ou levando cachorrinho, dizendo vem com o vovô, para fazer cocô na praça.” “Enquanto o físico ajudar e os alunos estiverem com sorrisos nos olhos e mirando na minha direção, quando estou expondo um assunto, entendo que devo ir ficando!” “Outra coisa que não me deixa parar é um diálogo que presenciei na cidade de Porto e que ficou cravado em minha mente.” “Estava eu em uma parada de autocarro (ônibus em Portugal), na Avenida Circunvalação, esperando o 205, Castelo do Queijo – Campanhã, para ir para a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, quando chegaram duas senhoras. Uma de uns 40 anos e outra já bem mais vivida. A mais nova vinha resmungando e dizendo: “Não vejo a hora de me reformar (aposentar, na terra mãe)!””. A outra, indignada respondeu: ‘Vocês, jovens, vivem reclamando e querendo parar de trabalhar, pois te digo: ‘parar é morrer!’” “Esta frase sempre me martela o pensamento. Mostra-se autoexplicável!” “Acordar e não ter nada para fazer; levar a vida sem agito; sem ter a galera te perguntando coisas nos corredores da faculdade, usando do teu conhecimento adquirido com o tempo; ficar com medo; retrair-se; não ser chamado de veterano pelos teus alunos mais próximos ou mesmo de coronel, título adquirido com trabalho, dedicação e amor à instituição que tenho servido há mais de 30 anos, deve pesar muito. Não sei, não penso e nem imagino como será a despedida.” “Cara, a vida é assim. Um dia a gente tem que parar”, disse meu brother. “Entendo que devo viver para o amanhã, buscando a felicidade, focando a cada dia em novos objetivos, sempre partindo para outra onda e surfando na crista. Sei que isto provoca angústia, cansaço, ansiedade, mas em compensação aumenta a adrenalina, que fornece a energia vital para prosseguir. Quando não estou submetido a toda esta azáfama, sempre tenho uma sensação de vazio. Um sentimento de final de tarde de domingo, daquelas melancólicas, soturna, depressiva”, argumentei. “Concordo em termos contigo”, diz o Gordura, “mas acredito que se pode fazer outras coisas na aposentadoria, que nos leve a viver com tranquilidade. De outra forma, de certeza, mas não tão cruel como pensas!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Roberto Busch

Ehrenmann do alemão, gentleman do inglês ou cavalheiro do português é o que se diz de uma pessoa dona de si, respeitosa consigo mesma e que se faz respeitar. Pessoa que, aos dizeres da linguagem popular, “teve berço” e que tem sua essência de vida baseada na educação, na gentileza e na sabedoria. Uma pessoa soberana, de bom caráter, com força interior para governar seus atos e regulada pela dignidade e pelo senso de liberdade próprio, além do respeito à liberdade dos outros. O Ehrenmann é baseado muito mais na moral do que no intelectual. Do respeito a si mesmo faz com que derivem outros atributos naturais que não precisam ser forçados para aparecer, como o cuidado com sua própria pessoa, sua linguagem, suas maneiras. Tem altivez e luta pela preservação constante da honra e do amor-próprio. Dificilmente, deixa abertura para sofrer censura, mas se censurado absorve e pensa sobre esta. Escuta mais do que fala, e quando fala, o faz com propriedade, porque só expõe sua opinião quando tem um mínimo domínio do assunto. “Não arrisca e nem petisca” como fazem as pessoas comuns que acham que podem discursar sobre tudo. É tratado com respeito, pois sempre está atento em manter as distâncias no relacionamento, em observar todos os matizes da educação convencional, respeitando a classe, a idade e a situação dos seus interlocutores. Sua polidez é uma atitude, uma marca pessoal. Segundo o filósofo John Locke, “os homens são bons ou maus, úteis ou inúteis, graças a sua educação”. Afirmou, ainda, que estes devem ser educados para servir à sociedade em que vivem. Para encontrar seu lugar dentro dela e exercerem aí sua vocação. Dentro das afirmações de Locke, enquadro Roberto Busch, professor e amigo por 30 anos, no curso de engenharia civil da Udesc. Este encontrou o seu lugar na sociedade e com a sua vocação serviu a ela. Joinville perdeu, com a sua ida para o Oriente Eterno, um dos seus Ehrenmanns, filho motivo de orgulho, ao qual deveria homenagear. Professor das nossas duas universidades, Udesc e Univille, deixou um legado pelo seu modo de ser, pela educação e por tudo que fez pelo serviço público de nossa cidade e do Estado. Para quem teve o prazer de desfrutar de sua amizade e de seu convívio, sofreu uma grande perda, mas que fiquem para nós e para seus inúmeros alunos o exemplo e uma saudosa lembrança.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Juarez Machado

Quis ir no dia em que começou a exposição do artista em Florianópolis. “Soixante-dix”. Estavam lá vários amigos de Joinville. Tive problemas e não deu. Não revi os amigos e nem tive o prazer de conhecer este cidadão que tanto honra a nossa terra. Fui no último dia da exposição. Estudei o ginásio no Colégio Bom Jesus com o Edson, irmão dele, e hoje entendo por que este vivia desenhando nas aulas de matemática e de geografia dos professores Castanheira e Aluizius Sehnem, respectivamente. Na exposição aparecem entrevistas, que fiquei apreciando, e pelos dizeres do Juarez, seu João, pai deles, fez com o Edson o mesmo que fez com ele, encaminhando-os para os desígnios da arte, cada um no seu momento e com suas propriedades. Relembrei dos tempos do Bonja e dei boas risadas quando ele contou que levou algumas reguadas da diretora, por nas aulas ficar desenhando mulheres peladas. Ri, pois me veio à mente a lembrança da dona Ana Maria Harger, diretora do colégio nas décadas de 1950 e 60, chamando o meu amigo Pinga de “sua joia” e quebrando a famosa vara, que sempre a acompanhava, nas suas costas, devido a alguma peraltice que ele teria feito. Hoje ela seria processada, mas aqueles eram outros tempos, de outro tipo de educação, de outros tipos de pais e filhos. A arte é uma forma de expressão que mostra as emoções, a história e a cultura, e estas, eu pude apreciar nos 70 quadros expostos. A pintura das suas figuras humanas sempre com um representar diferente, em cada tela, foi um deleite. Tenho comigo que os artistas são seres diferentes, além do nosso tempo. Colocam nas telas sensações que uma pessoa comum não consegue ao menos imaginar, por mais que se esforce. Se os artistas são pessoas iguais às outras, de onde vem a diferença? Não sei. Só sei que quando se observam quadros de um artista desse calibre, a gente se transporta para outro mundo. Fico pensando quantas horas ele ficou treinando suas mãos para obedecerem a sua imaginação e interpretarem seus sentimentos. Uma pena a exposição não ser apresentada em Joinville e aos joinvilenses. Imagino que se lhe fossem dadas as condições de expor aqui, isto lhe honraria e seria, também, uma homenagem da terra em que nasceu e à qual ele não cansa de declarar amor, independentemente do local em que a vida o leve a viver.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Moral

“Um revolucionário pode perder tudo: a família, a liberdade, até a vida. Menos a moral”. Esta frase é atribuída a Fidel Castro. Não está escrita aqui porque eu seja fã dele. Aliás, é o contrário, pois eu conheço Cuba e, tirando os cubanos e as belezas naturais, o resto é uma vergonha. Uma revolução dita para libertar o povo do imperialismo americano e que, na verdade, levou o povo a viver numa pobreza de dar dó, sem qualquer liberdade de atos e de expressão. Para mim, essa não passa de mais uma das frases de efeito político e que, neste momento de eleições, se somam a tantas outras que fluem em grande quantidade pelas bocas dos candidatos com a maior desfaçatez. No Brasil recente, acontece exatamente o oposto do que disse o ditador cubano. Os nossos políticos revolucionários não perdem a família, a liberdade e a vida. Se olharmos bem, veremos que o que fazem de melhor é se locupletar. No que se refere à moral, o que a gente vê são os possuidores de cargos, ditos importantes, sem qualquer vergonha de mostrar que não a têm. Dizia meu amigo Pirulito outro dia, referindo-se aos programas políticos assistidos na TV: “Ainda não morreu a minha esperança de ver gente séria na política. A esperança de ter a presença física de políticos que me passem confiança. Assisto aos programas e tento enxergar a ética e a moral dos candidatos. O que me passa, se é que meu senso de moral não está atravessado, é que a moral da maioria dos candidatos contém sempre algo de imoral”. “Mas o que está aí, está posto”, disse-lhe eu. “Eu sei”, respondeu, “mas não podemos ser cúmplices desta chacina moral que estão nos impondo e às novas gerações. Se nos querem subjugar lentamente com atos imorais e subterfúgios, acho que devemos resistir com dignidade. Entendo que o passado é lição para se meditar, e em cima deste pensamento fico pensando em como escolher o meu candidato a prefeito”. “Se te posso dar um conselho”, disse-lhe: “Vote em quem moralmente tem o que perder. Vote naquele que tendo o seu nome subjugado ao crivo da sociedade, por ser acusado de fazer malfeito ou errado, não resistirá. Pegará o seu chicote e se açoitará até sangrar!” Talvez não seja fácil, dadas as circunstâncias, descobrir quem! Mas sempre há que se achar uma forma!